Archive for the ‘Contos da Cidade’ Category
Era uma bela manhã de sexta. Bela não, havia esquentado um bocado nos últimos dias e todo mundo já desejava uma chuva ou que todas as casas vizinhas se tornassem piscinas. Começou o verão, época do ano em que as sombras são consideradas oásis e garrafas de água triplicam de preço.
Ela saiu de casa esbaforida, correndo, atrasada como sempre. Era sexta, maravilha, iria para a praia ao final do dia e passaria o feriado prolongado tostando os pés na areia quente, besuntando-se de protetor solar, mas, claro, queimando o suficiente para o biquini deixar uma marquinha sexy. Verão, praia, sol, era tudo perfeito, ela precisava ir e saiu de casa, naquele dia, cheia de malas, entusiasmada, verão, praia, mar, sol…
Chegou ao trabalho atrasada e teve um dia de dar nós no cérebro. Por que raios havia escolhido economia? Ah, eles pagavam bem. Mas, ah, trabalha-se muito. Os pés estavam úmidos, a hora não passava. Almoço, contar os planos aos amigos, voltar. A hora não passava.
Cinco minutos, só cinco minutos para se ver livre dos sapatos, para correr para a rodoviária, para o final de semana prolongado tão esperado, tão necessário e…
E-mail recebido. Era o chefe. Era um problema. Um problema dos grandes.
Não resolveu o problema. Não se importava em perder o emprego. Se importava apenas em sair daquele escritório inócuo e ir para a praia. Foi, tirou os sapatos e foi. Foi tão feliz, foi tão segura que quando voltou a pisar naquele prédio foi para pedir as contas. Foi trabalhar em outro lugar, ali, mais perto do litoral.
Eu só gosto de praia nesse calor…
Naquele dia estava trajado de terno, gravata e ansiedade. Eram 18 horas e o metrô abarrotado de gente e ele ali, precisando ir prá casa, para o conforto do seu lar e para ela. Ah, ela era o motivo de tanta pressa…
Perdeu o primeiro, o segundo e o terceiro trem. Começou a ficar mais nervoso, suava frio, a queria tanto neste momento, mas nesse momento não era possível tê-la ali, entre seus lábios, precisava dela, estava com pressa, casa, o mais rápido possível.
Chegou um trem, finalmente, um pouco mais livre o suficiente para ele entrar, foi e ficou de pé ao lado de uma linda moça que vestia um jeans surrado e uma bata bem soltinha, mas decotada… Flerte, olhar, piscadela… Mas ele tinha ela e ele à desejava muito. Ela estava em casa, esperando-o. Acabou o flerte, a moça desceu, ele continuou.
Duas estações… Uma… Desembarcar e pegar um ônibus… NÃO! Trânsito esse horário é impossível, ir a pé, correr, isso. Corre e chega ao prédio, nervoso acena para o porteiro abrir logo aquela porcaria de portão que range. Tropeça na entrada do elevador, aperta o oito. Cansado, suado, nervoso, precisa dela mais do que em qualquer outro momento do dia.
Sobe.
Sobe.
Ele sabe que ela está já alguns passos, desce tropeçando novamente, é como se ela o chamasse, exigisse a sua presença ali, agora. Ele entra, tira o terno, afrouxa a gravata, ele tem ela e não a divide com ninguém, é todinha dele… Abre-a e dá uma mordida enorme, acarrancando um pedaço dela, sua amada, a trufa, a amante daquele moço chocólatra.
Cambada, minha voz é uma merda e eu faço muitos comentários nonsense, o que não significa nada porque uns
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Blé.
Era um dia de sol gelado. Estava sol, mas o vendo estava cortante. Era um típico dia de inverno na cidade. Entre os encasacados, estava ela com uma blusa fininha que deixava o vento passar e, tremendo, ficou esperando o ônibus passar. Entre as batidas dos dentes, um cigarro prá tentar esquentar a boca.
O nome dela era Isabela e o dia estava só começando. Após às 6 inacabáveis horas de trabalho atendendo pessoas que ela nunca veria pessoalmente, pegou seu casaquinho de lã e foi para o ponto de ônibus, andando rápido na esperança que pudesse driblar o vento ou se esquentar. Acendeu o cigarro – vício maldito! – ela praguejava. Atravessou a rua calmamente, decidiu sentar, depois decidiu ficar em pé mesmo – quem sabe se mexendo o vento diminuísse?
Depois de um bom tempo de espera e alguns cigarros à menos no maço, ela subiu no ônibus. Escolheu um lugar individual lá no fundo, abriu a bolsa e tirou um livro: “Isabela”. O livro tinha o nome dela e, com uma capa amarelada, via-se claramente que era uma daquelas histórias de amor melosas, picantes e nonsenses. Ela gostava, lia rápido, com gosto, para chegar ao final. E ria. Em alguns trechos, ria copiosamente como se o mundo não estivesse parado lá fora do ônibus que corria para chegar logo ao seu destino. Ria, agora tranquila, porque estava um pouco mais quente que lá fora e a blusa de lã era suficiente. Ria da cara das pessoas que entravam como se fossem todos palhaços, como se o mundo fosse um circo. Ela só via risadas e saiu rindo, desembarcou rindo.
Quando ia atravessar a rua, sedenta para saber o final do intrigante livro, não percebeu o caminhão.
E lá se foi, rindo.
(Esse post é uma história sentimentalóide, babaca e de final triste, mas tem umas melhores, mesmo. Isso aí é pura ficção, exercício de vocabulário, o nome do personagem é fictício e a história eu sei lá como acaba, porque caminhão nenhum pegou a moça de malha fina de lã quando ela desceu do ônibus.)
(Aviso, esse é um texto sentimentalóide babaca, se você sofre de diarréia ao ler prosas, saia daqui agora.)
O chão de borracha das estações de metrô não dizia nada para quem passava ali, correndo frenéticamente para alcançar lugar nenhum, mas dizia muito para aquela que ficava ali em cima, sentada, observando, tomando nota.
Sentindo o drama, a felicidade, o medo, a paixão, a paranóia, a insanidade das pessoas, passou a escrever como se fosse parte daquilo, como se fosse o chão que os sustentava e as paredes que os rodeavam, como se estivesse ali sentindo tudo aquilo também.
São tantos personagens de uma imensidão que mistura tanta coisa, é um grande liquidificador de emoções e ilusões que batem de porta em porta, um misto de tudo de bom e ruim que só uma cidade oferece.
Eu sentei ali e observei. Eu tomei nota, uma louca varrida escrevendo no meio do caos como se nada daquilo estivesse acontecendo realmente ou, pior, como se o mundo estivesse em câmera lenta, cada dia acompanhando por uns poucos minutos uma pessoa diferente e criando nessa pessoa um personagem diferente.
Isso pode soar obsessivo, mas não é, porque se for, inventar personagens e criar histórias se tornou a mais prazerosa obsessão da minha vida de observar e imaginar a cidade.
[Nem preciso dizer que isso virará uma categoria, que vou colocar todos os meus contos sentimentalóides babacas nela, que qualquer semelhança dos meus contos com a realidade é mera coincidência e que eu vou odiá-los mortalmente né? Então tá.]













