- 1994: fazia tratamento prá adenóide, viajava com a minha mãe. Ela falava que tinha um mundo das fadas no meio das nuvens da serra. Eu acreditava piamente naquilo. Perdi meu avô e não entendia nada de morte, mas chorei em ver minha mãe chorando.
- 1995: eu li “O Menino do Dedo Verde” pela quinta vez. Depois disso li mais 10 vezes e foi o livro que mais li na vida. Eu queria muito ter um dedo verde. Pintei de canetinha e tive um dedo verde e inútil durante duas semanas.
- 1996: eu sentava no colo do meu pai e ele me contava de como era a vida dele com a minha idade. E era triste. Eu tinha vontade de abraçar ele e dizer que ninguém nunca mais ia machucar ele, que ele nunca mais ia ter que trabalhar numa fábrica de cordas. Eu nunca fiz isso.
- 1997: mudei de escola. Odiava a nova. Conheci pessoas com as quais convivi durante uns 6 anos e não fizeram a menor diferença na minha vida. Continuam estranhos para mim.
- 1998: minha irmã me deu um computador. Funcionava mais ou menos, mas eu podia entrar no IRC e achava o máximo. Foi o melhor presente que ela me deu na vida. Minha primeira paixonite. Era correspondida. A coisa mais legal que aconteceu foi ficarmos de mãos dadas brincando de esconde-esconde. No ano seguinte, ele saiu da escola. Ah, teve o recado na mesa. “Carol” – é genial escrever em mesa de escola. Sai, voltei, tinha lá: “Carol – a mais linda”. Foi a coisa mais bonita que alguém do sexo oposto me disse, porque eu tinha certeza absoluta que era verdadeiro. Crianças são verdadeiras com seus sentimentos.
- 1999: minha primeira briga com uma professora. Fiz ela pedir desculpas. Meu primeiro e único zero. Descobri que estudar é uma delícia. Descobri que quem não gosta é idiota. Fui a melhor goleira de handball da escola, o que me fez jogar com as maiores e desistir, logo em seguida.
- 2000: um professor finalmente me fez gostar de matemática. Ano pacífico, sem briga nenhuma, nem em casa. Papai me levava e me buscava na escola e eu falava com duas ou três pessoas, não mais. Sentava na frente e passei a usar óculos direto, não só prá ler.
- 2001: me senti rejeitada pela primeira de muitas vezes, pelos colegas de sala. Chorei quando vi uma nação em luto. Passei a jogar truco com frequência. Jogava volêi, eu era ruim por sinal, mas adorava sacar, descontava minha força toda na bola.
- 2002: formatura da oitava série. Não sinto o menor orgulho daquilo. Dormi na casa de uma amiga. Mostrei a bunda prá geral prá pagar aposta. Decidi nunca mais apostar nada sem ter certeza de ganhar. Claro que não deu certo. Bebi prá caralho, até minha alma vomitou aquele dia e tenho certeza que vi um pedaço do meu estômago no meio do chão do banheiro. É, não deu tempo. Claro, meu primeiro porre. Ano do mal. Meu primeiro pé-na-bunda mais que oficial. Comecei a escolher minhas amizades. Escolhi certo.
- 2003: minha melhor amiga. Minha prima que era irmã. Porres legais, fogueiras, truco, férias de Julho. Maravilhosas férias de Julho. O melhor ano da minha vida. O meu melhor aniversário, com todas as minhas amigas reunidas. As amigas que eu tenho até hoje, por mais de longe que estamos. Amo vocês, do meu jeito. Uma nova escola, que eu adorei. Perder um amigo e um contato mais forte com a morte. Dor.
- 2004: amigos de verdade. Novidades. Descobertas. A primeira tequilada. Vinho no coreto. A Karen. E eu. E ela.
- 2005: cagadas. Muitas. Várias e mais algumas. Descobri que sou hipócrita, prepotente e burra.
- 2006: ano nulo.
- 2007: ano maldito. Fiz o blog. Perdi a minha Mãe. Perdi o meu chão e conheci uma doença estranha que já foi embora: depressão. Percebi que, por mais ferrada que eu esteja, sempre tem alguém pior. Aprendi gentileza, passei a usar a minha educação e isso só me fez perceber outras tantas coisas. Matei quem estava me matando. Mas perdi a pessoa mais maravilhosa do mundo.
- 2008: ano estranho. Vim para São Paulo, fiz novos amigos, inimigos e coleguinhas. Me deslumbrei, me decepcionei e cresci um monte. Fiz umas burradas, umas cagadas e isso tudo já passou.
- 2009: elas. As duas. Voltar para a vida. Amigas, de novo. Esperar seis meses, só seis. Dinheiro, esse maldito, odeio precisar dele. Resoluções, mudanças, tequilas e novos amigos, os melhores em anos. Fênix. Obrigada.